28 de outubro de 2009

> Uma reflexão sobre a questão da sucessão (II) - A investidura Reuss-Crowley

por Carlos Raposo
a nuvem de desinformações que lança sombras sobre a pouco conhecida história da Ordo Templi Orientis, tornou-se mote um tanto corriqueiro propalar o “pior homem do mundo”, Aleister Crowley (i.e. Frater Baphomet), como o sucessor direto e legal de Theodor Reuss (i.e. Frater Merlin Peregrinus), fundador e primeiro Chefe Externo da Ordem (ou O.H.O. Outer Head of the Order). Rapidamente, refletir um pouco sobre esta sucessão será o propósito deste post.

Inicialmente, é relevante expor que, no caso da sucessão Reuss-Crowley, boa parte das mencionadas desinformações tem dupla origem. Primeiro, ela vem de ninguém menos do que o próprio Crowley; depois, vem daqueles que por alguma obscura motivação religiosa ainda precisam repetir o que ele disse.

No que diz respeito ao que foi dito por Frater Baphomet, por exemplo, especificamente relacionado a sua posição como líder absoluto da O.T.O., ele declarou abertamente em suas Confessions que em 1922 Reuss (após ter sofrido um ataque cardíaco) haveria meramente desistido da liderança da Ordem em seu favor. Nas suas palavras:


…uma corporação foi fundada sob o nome O.T.O. (Ordo Templi Orientis)… Seu propósito é comunicar em noves graus os segredos, não apenas da maçonaria (com os Ritos de 3º, 7º, 33º, 90º, 97º), mas também da Igreja Católica Gnóstica, dos Martinistas, dos Sat Bhai, dos Rosacruzes, dos Cavaleiros do Espírito Santo e assim por diante, com um décimo grau honorário para distinguir um “Rei Santo e Supremo” da Ordem, situado em cada país onde ela estiver estabelecida. O Chefe desses reis é o O.H.O. (Outer Head of the Order - Chefe Externo da Ordem, ou Frater Superior), que é um autocrata absoluto. Essa posição na ocasião era ocupada por Theodor Reuss, o Rei Santo e Supremo da Alemanha, que em 1922 se demitiu do cargo em meu favor... (Crowley, 1979:700)

Citar as Confessions tem sua razão de ser: ocorre que este livro – que de modo magistralmente cínico foi denominado por Crowley como sua “autohagiografia”(1) – passou a ser a principal fonte a partir da qual alguns grupos que hoje se denominam Ordo Templi Orientis, sobremodo os mais sectários, através da repetição de suas palavras procuram estabelecer que Frater Baphomet já servia como O.H.O. desde 1922, ainda antes da morte do fundador e verdadeiro dono da Ordem, Theodor Reuss.(2) Entretanto, longe da abdicação de Reuss ser verídica, o que ocorre aqui é a precipitada tentativa de Crowley, sem qualquer tipo de comprovação minimamente convincente, de legitimar uma investidura como se esta lhe houvesse sido diretamente outorgada por Reuss. Contudo, como sabido, simplesmente tal sucessão jamais existiu. Ademais, quando se considera os últimos anos de vida de Frater Merlin Peregrinus e sua completa antipatia e aversão tanto em relação à Aleister Crowley quanto à religião thelêmica criada pelo mago inglês, até mesmo a hipótese da citada abdicação soa como algo absurdamente tolo.(3)

O tema soa tão canhestro que nem sequer Karl Germer (1885-1962), fidelíssimo discípulo de Crowley (e seu legítimo herdeiro), acreditava nessa sucessão. Não foi por menos que ele afirmou não haver qualquer documento, carta ou sequer um módico registro nos diários de Crowley que comprovasse a suposta nomeação deste como líder máximo da Ordem (Koenig, 1994:43). Curiosamente, a lápide para o assunto, o esquife que encerra o caso de modo definitivo, vem do próprio Crowley, que findou por admitir por escrito a Heinrich Traenker (1880-1956), líder alemão da O.T.O., que Reuss jamais o havia escolhido como seu sucessor na Ordem (Koenig, 1999:18).(4)

Assim, hoje é praticamente um consenso entre os historiadores aceitar o fato de que Reuss simplesmente faleceu sem apontar qualquer nome para sucedê-lo na função de O.H.O., como líder internacional da sua Ordo Templi Orientis. Outrossim, tentar apresentar ou insinuar Crowley como sucessor legítimo e direto de Reuss, como se este houvesse intencionalmente transmitido seu cargo àquele, é algo considerado tanto primário quanto equivocado, e até mesmo tendencioso, visto ser uma alegação sem qualquer consistência ou sustentação histórica. Deste modo, qualquer afirmação não embasada, cuja pretensão seja sugerir uma nomeação sucessória de Reuss para Crowley (como o fazem Wasserman, 1990:94 e Scriven, 2001a:11)(5) deve ser apreciada com extrema desconfiança. Informações distorcidas de igual jaez, quando examinadas de modo criterioso, revelam, por parte de seus autores, ou um crasso erro histórico ou uma distorção premeditada da realidade.

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NOTAS:

1) Uma hagiografia é a biografia de um alguém considerado santo ou santa por uma religião qualquer. Crowley foi o primeiro autor, e até aqui o único autor, a escrever uma “autobiografia de um homem santo”, ou seja, uma autohagiografia. Aleister Crowley é considerado um homem santo, tanto por ele mesmo quanto pelos seguidores da religião thelêmica.

2) e.g., ver “O.T.O. Under Crowley” – uma versão em português desse texto pode ser lida aqui.

3) Relembrando, dentro desse contexto, no post Uma reflexão sobre a questão da sucessão (I)”, escrevi que “nesse período Reuss passaria a desaprovar completamente qualquer ingerência de Aleister Crowley na sua O.T.O., indo ao extremo de considerar Thelema – a religião fundada por Crowley – uma ideologia nociva e comunista. Assim, Reuss purgaria de sua O.T.O. qualquer menção a Thelema, eliminado da Ordem todos os indícios da religião criada pelo afamado mago inglês. Como comprova a documentação disponível, de fato Reuss chegaria a romper qualquer contato com Crowley, dizendo inclusive que quaisquer ações do inglês não eram mais da conta nem dele e nem da Ordo Templi Orientis”.

4) Não deixa de ser relevante observar que aquilo que Crowley declara em suas Confessions é bem posterior à data da carta enviada a Traenker. Em outras palavras, ao escrever as suas Confissões o “pior homem do mundo” de fato já sabia que Reuss jamais o havia nomeado chefe da Ordem. Dito de modo mais claro, em sua “autohagiografia” Crowley simplesmente mentiu sobre o assunto.

5) James Wasserman e David Scriven são destacados membros da facção da O.T.O. hoje conhecida como “Califado”. Atualmente, Scriven é o líder (Rex Summus Sanctissimus) da Grande Loja para os E.U.A., sob o mote de Sabazius Xº.

BIBLIOGRAFIA

CROWLEY, 1979: The Confessions of Aleister Crowley. Edited by John Symonds and Kenneth Grant. Londres: Arkana.

KOENIG, Peter-Robert. 1994: Materialien zum OTO. München: AWR.
_____. 1999: “Introduction”. In: NAYLOR, Anton R (Ed.). O.T.O. Rituals and Sex Magick. Thame: I-H-O Books; pp. 13-61.

SCRIVEN, David (aka Tau Apiryon). 2001: “History of the Gnostic Catholic Church”. In: CORNELIUS, J. Edward (Ed) e CORNELIUS, Marlene (Ed). Red Flame - A Thelemic Research Journal, nº 2. Berkely: Red Flame Productions, pp 3-15.

WASSERMAN, James (aka Ad Veritatem). 1990: “An Introduction to the History of the OTO”. In: BETA, Hymenaeus (Ed.) The Equinox, Vol. III, nº X. Maine: Samuel Weiser, pp 87-99.

1 de junho de 2009

> O Sistema de graus da O.T.O. de Reuss e suas aproximações Maçônicas

por Carlos Raposo

A Glória é como um círculo na água,
que nunca cessa de se aumentar,
até que, de tanto se expandir,
no nada vai se dispersar.
(William Shakespeare, em Henrique VI)


entre os diversos temas relacionados às Ordens iniciáticas, o respectivo Sistema de Graus pertinente a cada uma delas sempre estará entre os tópicos que mais despertarão a atenção da pesquisa. Isso porque um Sistema de Graus tem muito a mostrar a respeito não somente de como a Ordem é iniciaticamente planejada, mas também desvelará bastante a respeito dos fitos e sentimentos daqueles que a conceberam.

No caso específico da Ordo Templi Orientis, desde sua fundação alguns foram os modelos propostos à sua estrutura iniciática de graus. Como os esquemas de graduação imaginados por Merlin Peregrinus (Theodor Reuss) não foram efetivamente postos em prática (pois muitos membros da sua O.T.O. foram diretamente admitidos aos graus superiores da Ordem), isso favoreceu constantes reajustes no diagrama inicial. Portanto, não existe um consenso que estabeleça uma estrutura definitiva e, por isso mesmo, facilmente poderão ser encontradas outras referências levemente distintas daquela estrutura que será delineada no presente artigo.

Entretanto, longe de meramente querer expor de modo preciso a estrutura de graus da Ordem, meus objetivos aqui são os seguintes: primeiro, apresentar uma proposição referencial conforme inicialmente idealizada por Reuss, para que o arcabouço iniciático da Ordem comece a ser percebido como uma seqüência lógica de graus. Deste modo, posteriormente, sua evolução poderá ser perfeitamente entendida, até se chegar aos modelos finalmente elaborados por Aleister Crowley e seus seguidores.(1) Depois, também pretendo mostrar a curiosa manobra de Reuss no sentido de tentar “aproximar” a estrutura da O.T.O. da estrutura de graus pertinente a alguns dos mais conhecidos Ritos Maçônicos do mundo. Concomitantemente a esse segundo objetivo, explicarei o porquê dessa tentativa de “aproximação”, por parte de Reuss, entre O.T.O. e Maçonaria. Por último, responderei a questão a respeito de como, de modo geral, a Maçonaria reagiu às manobras de Reuss.

Logo após a fundação da O.T.O., fato evidenciado por seu documento inaugural, qual seja, a Primeira Constituição da Ordem, datada de 22 de janeiro de 1906 (Reuss, 1999:69), Reuss ainda não havia definido muito bem qual seria a sua estrutura de graus que a comporia. Conforme Breeze (1995:10), foi somente alguns anos mais tarde, em 1912, na edição comemorativa do Jubileu do periódico The Oriflamme, que uma estrutura iniciática bem rudimentar calcada em dez graus lineares começou a ser esboçada. Na ocasião, o Sistema de graus da O.T.O. seguia conforme a seguinte tabela:

Grau - Título
Iº - Probacionista
IIº - Minerval
IIIº - Maçom – Loja de São João
IVº - Maçom Escocês
Vº - Maçom Rosacruz
VIº - Rosacruz Templário
VIIº - Místico Templário
VIIIº - Templário Oriental
IXº - Perfeito Iluminado
Xº - Rei Supremo ou O.H.O.

Seja acrescentado que, ainda segundo essa mesma fonte, alguns graus da estrutura acima possuíam duas subdivisões. Destarte, o grau VI era subdividido em dois estágios, chamados de Magus e Teoretikus; o grau VII em Praktikus e Adeptus; enquanto que o VIIIº se subdividia em Princeps e Illuminat.(2)

Apesar de aparentemente bem definida, considera-se essa estrutura rudimentar, pois nada mais consta a respeito da mesma. Assim, se por um lado temos tanto o esquema quanto a titulação dada para cada grau, por outro, nada mais existe a respeito dos graus propriamente ditos. Deste modo, questões hipotéticas do tipo, como esses graus eram constituídos, quais eram suas respectivas instruções, o que se fazia em cada um deles, etc., simplesmente não podem ser respondidas de forma apropriada. Até mesmo a existência de Rituais que os definissem adequadamente parece duvidosa. Em suma, a completa ausência de praticamente tudo a respeito desses graus leva fortemente a crer que nos primeiros anos da O.T.O. de Reuss, ela sequer funcionaria como uma Ordem bem definida e devidamente constituída. Conforme apregoa o jargão, era no máximo uma “Ordem de papel”.

Há de se dizer ainda que, despontando como previsível exceção dentro da pouca robusteza característica deste primeiro sistema de graus, praticamente só há notícias (e muitas) sobre a função daquele que ocuparia o Grau máximo da Ordem, o Xº O.T.O. (no caso, função exercida ad vitam pelo próprio Reuss). Apenas como ilustração, na mencionada Carta Constitutiva de 1906, entre várias outras atribuições, encontra-se no Artigo V, Seção II, que o "Frater Superior e Chefe Externo da Ordem (C.E.O. – do inglês Outer Head of the Order, O.H.O.) terá o Poder Único de preencher todos os cargos gerais, apontando pessoas para ocuparem os mesmos, e terá o poder de remover qualquer pessoa de um cargo geral de acordo com sua vontade" (Reuss, 1999:67). Ademais, não é exagero afirmar que grande parte da primeira Constituição da O.T.O. não passa de um adagiário que busca tão somente reforçar o O.H.O. como líder absoluto e total da Ordem.

Todavia, mais tarde o quadro dos graus da O.T.O. mudaria substancialmente. Na ocasião, enquanto as atrocidades e os horrores da Primeira Grande Guerra assolavam boa parte da Europa, Merlin Peregrinus tinha preocupações muito mais urgentes e importantes, como reformular o sistema de graus de sua Ordo Templi Orientis, por exemplo.

Na nova Constituição da O.T.O. publicada em 1917, Reuss alterou as subdivisões anteriormente propostas e, muito curiosamente, arriscou um estranho esquema comparativo e equiparativo entre os graus de sua Ordem e os 33 graus da Maçonaria, mais especificamente num modelo livremente inspirado nos graus do regular Rito Escocês Antigo e Aceito (R.E.A.A.), mas que também carregava traços do obscuro Rito de Memphis e Misraim (M.M.). Seguindo conforme sua proposta, o quadro pode ser resumido da seguinte forma:


Graus da O.T.O. e equivalência aos Graus Maçônicos (R.E.A.A. e M.M.)

Iº e II º
Círculo Externo: Candidatos ainda em fase de correspondência e preparação

IIIº
Maçons: 
1º - Aprendiz
2º - Companheiro
3º - Mestre

IVº
4º ao 6º - Maçom Escocês
11º e 12º - Cavaleiro de Santo André
14º e 15º - Maçom do Real Arco


16º ao 18º - Cavaleiro Rosacruz

VIº
20º ao 30º - Cavaleiro Kadosh
31º ao 33º - Grande Inspetor Geral

VIIº
a) Teoreticus
b) Magus da Luz
c) Grande Mestre da Luz ou Grande Mestre de todas Lojas Maçônicas

VIIIº
a) Praticus
b) Adeptus
c) Princeps
d) Illuminatus

IXº
Alto Sacerdote do Sanctuarium Sanctum Sanctorum


Chefe Externo da Ordem (O.H.O.)

De imediato, duas peculiaridades são observados no quadro comparativo imaginado pelo O.H.O.: primeiro, uma nomenclatura bem atípica para os graus do R.E.A.A., não muito condizente com os títulos que normalmente lhes são creditados; depois, a incompreensível omissão dos graus 7, 8, 9, 10, 13 e 19. Não há qualquer explicação sensata que possa esclarecer tanto a atipicidade da nomenclatura usada quanto o sumiço dos graus, senão terem sido apenas equívocos cometidos por Merlin Peregrinus.

Algo que também salta aos olhos é que ao elaborar esse esquema, Theodor Reuss faz absoluta questão de lembrar o quão completo é o sistema iniciático que ali estava exposto. Para isso, na tabela original ele escreve a seguinte observação ao VIº O.T.O: “N.B.! O 33º é o último grau da Francomaçonaria” (Koenig 1994:22).(3) Assim, de acordo com o paralelismo iniciático arquitetado por Reuss, os seis primeiros graus da O.T.O. compreenderiam nada menos do que todos os 33 graus da Maçonaria regular (basicamente, conforme o R.E.A.A.). Os demais graus, do VIIº ao Xº O.T.O., estariam obviamente dispostos para além da via iniciática proposta pelos 33 graus maçônicos, conquanto que, de uma forma não suficientemente clara, resumiriam o restante de graus pertinentes ao Rito de Memphis e Misraim. Com isso, Merlin Peregrinus claramente pretendia dizer ao mundo que não somente a sua Ordem absorvera todo conhecimento maçônico existente, mas afirmava também que o conhecimento da sua O.T.O. compreenderia paragens muito superiores àquelas vislumbradas pela Maçonaria.(4)

Mesmo ao se levar em conta toda rebuscada onda comparativa entre a O.T.O. e a Maçonaria, também não é exagero algum afirmar que tal paralelismo jamais funcionou na prática, tendo existido apenas na fecunda e pomposa mentalidade de Reuss. Ademais, aqui fica patente mais uma tentativa pueril de Merlin Peregrinus de ser identificado como líder máximo de uma extraordinária estrutura maçônica, devidamente reconhecida como tal.

Todavia, levando em consideração ora o comportamento ora as ambições iniciáticas de Reuss,(5) pode-se facilmente concluir que seu plano, basicamente, consistia em propagar a O.T.O. como um organismo inteiramente de acordo, equiparado e em perfeita harmonia com a Maçonaria e seus ideais. Isso porque quando se pensa no Theodor Reuss dessa época não se pode deixar de lado a sua fixação em exaltar a glória de sua Ordem, expandindo-a a qualquer custo. Desta feita, ao “aproximar” idealisticamente a sua O.T.O. da Maçonaria, fica patente que o O.H.O. tencionava atrair maçons regulares à sua Ordem. Ao mesmo tempo, ao “equiparar” o VIº da O.T.O. ao grau 33 da Maçonaria, ele garantiria aos membros desta o livre acesso ao primeiro grau subseqüente de sua Ordem. Em palavras mais claras, maçons do grau 33 poderiam ser livremente e imediatamente admitidos na O.T.O., diretamente no VIIº. Concomitantemente, ao garantir entrada de maçons altamente ranqueados em sua Ordem, fica igualmente claro que Reuss nutria a vã esperança de que, com o tempo, tratados de amizade e de mútuo reconhecimento pudessem ser viabilizados até que, finalmente, o movimento inverso pudesse obviamente ser possível. Deste modo, uma vez aceita como uma Ordem maçônica constituída e inteiramente regular, a O.T.O. finalmente teria seus graus fraternalmente acolhidos e também equiparados pela Maçonaria, permitindo agora aos membros daquela a livre entrada nesta. Então, seguindo o mesmo exemplo, agora teríamos os membros a partir do VIº O.T.O. sendo diretamente aceitos como 33º da Maçonaria.(6)

Dentro desse contexto, à guisa de exemplos, alguns casos emblemáticos poderão ser citados. Primeiro, frequentemente é dito que, em 1910, o notavelmente afamado Aleister Crowley haveria entrado na O.T.O. diretamente em seu VIIº,(7) justamente por ele alegar ser maçom do grau 33 (Scriven, 2001a:10 e 2001a:219). Depois, em 1921, encontramos a mesma situação relacionada à figura extremamente conhecida do “Dr.” Harvey Spencer Lewis (1883-1939), o qual, uma vez reconhecido como maçom altamente graduado por Theodor Reuss, foi imediatamente admitido como membro honorário Soberano Santuário da O.T.O., entrando também diretamente em seu VIIº (Lewis, 1980:38).

Sobre os dois casos “maçônicos” acima relacionados, valerá ser observada, mesmo que brevemente, a seguinte questão: na verdade, quais eram as credencias maçônicas tanto de Crowley quanto de Lewis? Responder essa questão é importante, pois demonstrará como funcionava o processo de reconhecimento de autoridades Maçônicas por parte de Theodor Reuss. Inicialmente, quanto a Spencer Lewis, sabe-se que o Imperator da AMORC fora grau 2 da Maçonaria, ou seja, Companheiro Maçom.(8) Por sua vez, ressalta-se que Crowley – apesar de todas as suas alegações – simplesmente jamais possui o status de maçom regular.(9) Deste modo, conclui-se que Reuss não somente franqueou os graus superiores de sua O.T.O. para maçons devidamente investidos, mas também os deixou francamente abertos para qualquer pessoa que simplesmente se dissesse maçom de alto grau, mesmo que sem apresentar qualquer Garantia a respeito. Novamente, o que dirigia Reuss era, custe o que custar, expandir a sua Ordem, tanto em tamanho quanto em glória.

Entretanto, a revelia dos esforços e da intenção de Reuss em expandir a O.T.O., registre-se que jamais qualquer autoridade associada à Maçonaria regular a aceitou como uma Ordem maçônica devidamente reconhecida. Por essa razão, acertadamente, afirma-se que os graus da O.T.O. não são considerados válidos como graus maçônicos (Breeze, 1995:3). Portanto, efetivamente, embora na época de Theodor Reuss Maçons graduados tenham sido diretamente admitidos aos graus superiores da Ordo Templi Orientis, jamais um membro da O.T.O. entrou para a Maçonaria regular com um grau superior ao de Aprendiz Maçom. Quanto ao próprio Theodor Reuss, a Maçonaria regular simplesmente o ignora.

Finalizando, Reuss faleceu em 1923, sem os reconhecimentos almejados e sem nomear qualquer herdeiro como líber absoluto de sua Ordem. Na ocasião, Merlin Peregrinus praticamente só despertava desconfiança. Na mesma época, tão anódina era a O.T.O. que toda sua pretensa glória e pompa pareciam condenadas a se dispersarem no nada...



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NOTAS:
1) Paralelamente aos modelos de graus estruturados por Reuss, outros também foram propostos por Crowley. No entanto, enquanto Reuss permaneceu como O.H.O., todas as proposições de Crowley foram rejeitadas. Apenas quando este tomou para si a liderança da O.T.O. é que, efetivamente, suas proposições passaram a valer. O esquema de graus da O.T.O., segundo idealização de Crowley, será apresentado num próximo artigo, aqui mesmo em Orobas.
2) Mantenho aqui a grafia utilizada por Reuss.
3) Em seu site, Peter Koenig reproduz (a qualidade da imagem não é boa) a tabela da sinopse dos graus da O.T.O. de Reuss, onde essa “observação” pode ser lida. O link para a página é http://www.parareligion.ch/synopsis.htm/synopsis.htm
4) Observe-se que Reuss de fato possuía uma elevadíssima autoestima. Por exemplo, Merlin Peregrinus costumava se apresentar como “Soberano Grão Mestre Geral ad vitam das Ordens Maçônicas Unidas da Escócia, de Memphis e Misraim, e de todo Reich Alemão, Soberano Grande Comendador, Grande Absoluto Soberano, Pontífice Soberano, Soberano Grão Mestre dos maçons da O.T.O., Supremo Magus Soc. Frat. R.C., SI, 33º, Termaximus Regens I.O. (i.e., Illuminatorum Ordo), etc". Ver meu artigo Origens Maçônicas da Ordo Templi Orientis.
5) Para se conhecer um pouco sobre o perfil comportamental de Theodor Reuss, recomendo a leitura de meu artigo biográfico “Theodor Reuss (1855-1923)”.
6) Mesmo desconsiderando a pouca engenhosidade de Reuss, previsivelmente, jamais existiu, por parte da Maçonaria regular, a mínima predisposição de aceitar a O.T.O. como um organismo maçônico devidamente constituído.
7) A respeito da pitoresca entrada de Crowley na O.T.O, ver aqui mesmo em Orobas o meu artigo “Aleister Crowley: entra a Grande Besta”.
8) Apesar de supostas alegações a seu respeito, conforme apurado e de acordo com uma publicação autorizada pela própria AMORC, Spencer Lewis, seu Imperator e fundador, fora tão somente Companheiro Maçom (Rebisse, 2005:179).
9) Na ocasião, Crowley alegava ter sido elevado ao 33º por um ancião mexicano chamado Dom Jesus Medina, um dos “mais altos chefes do Rito Escocês” da Maçonaria do México (Crowley, 1979:202). Biografias mais recentes de Crowley, entretanto, apontam Medina como um curioso “personagem apócrifo”, ou seja, alguém que jamais existiu (Sutin, 2000:83). Enfim, tudo não passou de pura invenção de Crowley, que jamais foi maçom regular.
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BIBLIOGRAFIA:
BREEZE, William (i.e. Hymenaeus Beta, Ed.). 1995: The Magickal Link- Vol. 9 nº I. Asheville: O.T.O.
CROWLEY, Aleister. 1979: The Confessions of Aleister Crowley. Edited by John Symonds and Kenneth Grant. Londres: Arkana.
KOENIG, P. R., 1994: Materialien zum OTO. Muenchen: AWR.
LEWIS, Ralph M. (ed). 1980: Documentos Rosacruzes. Suprema Grande Loja da AMORC.
NAYLOR, Anton R. (Ed.). 1999: O.T.O. Rituals and Sex Magick. Thame: I-H-O Books.
REBISSE, Christian. 2005. Rosicrucian History and Mysteries. San Jose: AMORC.
REUSS, Theodor. 1999: "INRI - Constitution of the Ancient Order of Oriental Templars - OTO". In: NAYLOR, Anton R. (Ed.). O.T.O. Rituals and Sex Magick. Thame: I-H-O Books, pp 65-69.
SCRIVEN, David (i.e. Tau Apiryon). 2001a: “History of the Gnostic Catholic Church”. In: CORNELIUS, J. Edward (Ed) e CORNELIUS, Marlene (Ed). Red Flame - A Thelemic Research Journal, nº 2. Berkely: Red Flame Productions, pp 3-15.
SUTIN, Lawrence. 2000: Do What Thou Wilt – A Life of Aleister Crowley. New York: St. Martin’s Press.

21 de abril de 2009

> Aleister Crowley: entra “a Grande Besta”!

por Carlos Raposo

Que o Adepto seja armado com seu Crucifixo Mágico
e provido com sua Rosa Mística.
........

O Crucifixo Mágico é o Bastão do Magista;
a Lança do Sacerdote; simbólica do Lingam.
Sua Rosa Mística é a Taça da Sacerdotisa, simbólica da Yoni.
(Aleister Crowley, Liber XXXVI – A Safira Estrela)

esmo quando avaliado todo o retrospecto das articulações subterrâneas empreendidas por Theodor Reuss, no sentido de dar notoriedade e reconhecimento à Ordem por ele criada, nada estaria comparado à admissão em seus quadros da “grande Besta do Apocalipse”, cognome do afamado mago inglês Aleister Crowley (1875-1947).(1) De fato, Reuss tentou reunir entre seus patenteados diversos grandes nomes do cenário ocultista do início do século XX (ver artigos sobre Rudolf Steiner, Arnold Krumm-Heller e Papus), contudo, foi justamente Crowley o personagem que finalmente daria a Ordo Templi Orientis o renome que hoje ela tem.

O presente texto visa apresentar, em linhas gerais, como aconteceu a nomeação de Crowley como líder da Ordo Templi Orientis para a Inglaterra. Ao mesmo tempo, pretendo aqui explicar porque a Ordem passou a ter tanta importância para Aleister Crowley e quais eram os planos do mago inglês para a organização concebida por Reuss.

Conforme relata certa fonte (Scriven, 2001:219), Crowley haveria sido admitido à O.T.O. em 1910, sendo recebido diretamente no VIIº.(2) Dois anos mais tarde, em 1912, após um inusitado encontro com o O.H.O. Theodor Reuss, esse o aceitaria como IXº para, logo em seguida, nomeá-lo Rex Summus Sanctissimus, Xº, Grande Mestre Nacional para a Irlanda, Iona e toda a Bretanha. Exercendo a função de Rei Inglês da O.T.O., Crowley adota para si a denominação “Baphomet Xº”, nominativa esta que lhe serviria de insígnia mística, nome mágico e selo pessoal.(3) A seção inglesa da O.T.O., sob a liderança de Crowley, passaria a se chamar Mysteria Mystica Máxima, ou M.'.M.'.M.'. (King, 2002:102 e Symonds, 1989:161n).

As circunstâncias de sua posse, em 1912, como Rei da O.T.O. para a Bretanha às vezes são narradas como misteriosas, no mínimo pitorescas. No entanto, conforme descrito desdenhosamente pelo próprio Crowley (1979:709), nesta época ele apenas considerava a O.T.O. um conveniente compêndio de “algumas verdades maçônicas”.

Sua opinião, entretanto, mudaria radicalmente, resultado de um de seus encontros com o líder Merlin Peregrinus, Theodor Reuss. Na ocasião, Reuss visitara Crowley em Londres. Ali, o O.H.O. acusaria “a Grande Besta” de revelar publicamente o supremo segredo da Ordem, o Arcano dos Arcanos, seu Segredo Central, reservado exclusivamente aos sublimes iniciados do IXº. Enquanto de um lado o atônito Crowley se defendia daquilo que era considerado uma gravíssima e injusta acusação, dizendo que nem sabia qual era o tal segredo e nem sequer pertencia ao grau em questão, do outro, um enfurecido Reuss se dirigia até a estante, pegava um opúsculo e lhe apontava o Capítulo XXXVI do The Book of Lies, livro escrito por Crowley. A passagem que denunciaria o inglês dizia que: "...que ele beba do Sacramento e que comunique o mesmo" (Symonds, 1989:160).(4) Conforme o O.H.O. da O.T.O., ali estavam explicitamente descritas tanto a natureza quanto a fórmula do ultra-secreto Rito do IXº da Ordem (King, 2002:102).

O mistério acerca do evento acima descrito vem da especulação, também por parte do próprio Crowley, para o seguinte ponto: como de costume salientando as incomuns circunstâncias de sua vida, Crowley confessou ter ficado atordoado com fato de Reuss conhecer o conteúdo do The Book of Lies, uma vez que este livro só seria publicado no ano seguinte, em 1913. Como explicar, então, pergunta “a Grande Besta”, que seu superior hierárquico na Ordem tivesse ciência do conteúdo do daquele livro, mesmo antes de sua publicação? O próprio Crowley dá a espantosa resposta, insinuando uma espécie portal aberto num de lapso interdimensional de tempo, cuja conseqüência fora proporcionar aos dois Adeptos a extraordinária oportunidade de um encontro, por assim dizer, inteiramente deslocado no espaço-tempo, adiantando-se um ano em relação a 1912 (Symonds, 1989:161-162).(5)

No decorrer do encontro e após horas de colóquio entre os dois iniciados, Crowley finalmente seria aceito por Reuss como IXº da Ordo Templo Orientis. Logo depois, Reuss o convidaria para ir a Berlim, onde seria empossado como Rei da O.T.O. para todo o Reino Unido.(6) Conforme um de seus biógrafos, John Symonds (1989:161), como Crowley jamais recusava a oferta de um jantar, uma aventura ou um título, ele prontamente aceitaria o convite de Reuss e rapidamente seria transformado em Rex Summus Sanctissimus da Ordem de frater Merlin.

Todavia, é importante destacar que Crowley afirma (1979:710) que fora justamente aquele o misterioso evento que o arrebataria numa súbita iluminação, advinda da imediata e profunda compreensão acerca da natureza dos ditos mistérios velados e celebrados pelos graus superiores daquela Ordem Templária. A partir dessa afirmação, não é exagero concluir que nesse instante Crowley passou a considerar que toda a doutrina religiosa de sua Lei de Thelema casava perfeitamente com o Segredo Central da O.T.O., como se esta Ordem também guardasse a própria Chave Mestra dos mistérios de sua religião. Assim, se até então a O.T.O. era vista por ele apenas como uma coleção de “verdades maçônicas”, agora a Ordem passava a ser entendida tanto como detentora da própria chave do progresso futuro (sic) da humanidade quanto como um veículo da boa nova thelêmica.

Todavia, longe dessas especulações fantásticas sobre supostas aberturas de portais interdimensionais, mais importante é frisar que, já em 1912, tão logo percebeu a verdadeira natureza do dogma central da O.T.O.,(7) Crowley simplesmente passou a cobiçar a Ordem para si. Deste modo, dentro de sua concepção mágica do universo, não mais importava o fato da O.T.O. ser fruto do que ele considerava Éon do Deus Morto ou Sacrificado, ou seja, conforme apregoado pela crença thelêmica, uma Ordem concebida antes de 1904.(8) Mais do que um simples ajuntamento de verdades iniciáticas maçônicas, a O.T.O., Ordem que ele considerava possuir nada menos do que a Chave de todos os Mistérios, também seria escolhida para se transformar numa Ordem religiosa cuja tarefa principal passaria a ser a difusão de sua recém criada religião thelêmica.

Desse modo, pela concepção de Crowley a Ordo Templi Orientis logo haveria de se converter na primeira Ordem do Velho Éon a se submeter integralmente e incondicionalmente a Lei de Thelema.


NOTAS:

(1) Uso de modo livre o termo “A Grande Besta”, por ser um designativo bem conhecido associado ao nome Aleister Crowley. Tecnicamente, esse título apenas seria adotado por Crowley alguns anos mais tarde, quando ele se autointitularia “Magus” de sua A.'.A.'. (com o mote mágico To Mega Therion, expressão grega para “A Grande Besta”).

(2) Outra fonte sugere sem entrar em detalhes que Crowley já havia estabelecido contato com a O.T.O. desde 1907 (Koenig, 1999:17).

(3) Tanto como líder da Ordem na Inglaterra quanto, um pouco mais tarde, autointitulado O.H.O. da O.T.O., Crowley usaria o mote Baphomet XIº. Contudo, há também quem afirme que seu nome mágico secreto era Phoenix (Grant, 1991:15).

(4) O capitulo 36 corresponde ao Ritual Safira Estrela (The Star Sapphire Ritual - Liber XXXVI). Em português, consulte minha tradução para o Liber XXXVI (cit. Duquette, 2007:133-135).

(5) Longe desta bizarra explicação, melhor é a hipótese sustentada por Francis King (2002:102n) quando sugere que a data de publicação impressa no The Book of Lies estava simplesmente errada.

(6) A patente original de Xº O.T.O. de Crowley, assinada por Reuss, parece ter sido perdida. No entanto, antes disso ocorrer, ela foi fotografada e publicada como "apêndice", em Occult Theocracy, escrito por Lady Queensborough (Koenig, 1994:4).

(7) O dogma maior, ou segredo central, da O.T.O., consiste na preparação ritualística do assim chamado Elixir da Vida, mistura de esperma com fluidos vaginais (Koenig, 1999:54). O Elixir também era denominado por Crowley e seus seguidores de Remédio Universal (King, 1989:123) ou ainda como Amrita (Koenig, 1999:55).

(8) Crowley acreditava, equivocadamente, que a O.T.O. havia sido fundada por volta de 1895, portanto, antes de 1904. Este último foi o ano de fundação da religião thelêmica e, conforme Crowley, representa o marco da passagem do Éon de Peixes para o Éon de Aquário (no linguajar thelêmico, do Velho Éon de Osíris, ou Éon do Deus Sacrificado, para o Novo Éon de Hórus).


BIBLIOGRAFIA

CROWLEY, Aleister. 1979: The Confessions of Aleister Crowley. Edited by John Symonds and Kenneth Grant. Londres: Arkana.

DUQUETTE, Lon Milo. 2007. A Magia de Aleister Crowley – Um manual dos Rituais de Thelema. São Paulo :Madras, tradução de Carlos Raposo.

GRANT, Kenneth. 1991: The Magical Revival. London: Skoob Books Publishing.

KING, Francis. 1989: Modern Ritual Magic. Dorset: Prism Press.
_____. 2002: Sexuality, Magic & Perversion. Los Angeles: Feral House.

KOENIG, Peter-Robert. 1994b: Materialien zum OTO. München: AWR.
_____. 1999: “Introduction”. In: NAYLOR, Anton R. (Ed). O.T.O. Rituals and Sex Magick. Thame: I-H-O Books; pp. 13-61.

SCRIVEN, David (aka Tau Apiryon). 2001a: “History of the Gnostic Catholic Church”. In: CORNELIUS, J. Edward (Ed) e CORNELIUS, Marlene (Ed). Red Flame - A Thelemic Research Journal, nº 2. Berkely: Red Flame Productions, pp 3-15.

SYMONDS, John. 1989. The King of the Shadow Realm. London: Duckworth.

Crédito da imagem: www.lashtal.com

1 de abril de 2009

> Papus, Téder e a O.T.O. na França

por Carlos Raposo

Um labirinto é uma casa edificada

para confundir os homens;
Sua arquitetura, pródiga em simetrias,
está subordinada a este fim.
(Jorge Luis Borges, em O Aleph)

presente post se encontra inserido exatamente no mesmo contexto dos artigos sobre Rudolf Steiner e Arnold Krumm-Heller, ou seja, diz respeito às tentativas de Frater Merlin Peregrinus (i.e. Theodor Reuss) de trazer um pouco de respeitabilidade e legitimidade para a sua então recém criada Ordo Templi Orientis. Como já visto nestes artigos, a estratégia de Reuss era deveras bem simples: atrair para a O.T.O. nomes de grande visibilidade no ocultismo internacional.

Posto isto, meu propósito aqui é avaliar a participação na O.T.O. do proeminente ocultista francês Dr. Gerard Encausse (1865-1916)(1), mais conhecido pelo cognome Papus. Concomitantemente, mesmo que rapidamente, apreciarei outros dois renomados ocultistas franceses que, de um modo ou de outro, costumam ser citados como expoentes confrades da Ordo Templi Orientis ao longo dos primeiros decênios do século XX.

Reuss contatou Papus em 1901, bem antes da fundação da O.T.O., que ocorreria apenas em 1906. Inicialmente, os objetivos de Reuss ao buscar se relacionar com aquele ilustre ocultista parecem ter sido dois: primeiro, aproximar-se de Papus; segundo, não medindo esforços para ser reconhecido como Maçom de prestígio, buscar representá-lo como líder na Alemanha do obscuro Rito Maçônico de Swedenborg(2). Contudo, embora houvesse sido admitido no citado Rito naquele mesmo ano (Gilbert, 1996:135), Papus não possuía autoridade para conferir quaisquer tipos de representações em seu nome. Deste modo, coube ao francês apenas se limitar a orientar Reuss no sentido deste procurar conversar com o Supremo Grande Secretário do Rito em questão, função essa então exercida pelo famoso maçom inglês Dr. William Wynn Westcott (1848-1925)(3). Por sua vez, na seqüência dos eventos, foi por intermédio de Westcott que Reuss chegaria ao personagem que detinha total autoridade para lhe dar a tão desejada representatividade relacionada ao Rito de Swedenborg: o polêmico Maçom John Yarker (1833-1913)(4).

O contato feito com Yarker logo se mostraria de grande proveito para Reuss (em breve o comentarei por aqui, em Orobas). Contudo, em relação a Encausse – tema principal do presente artigo –, somente um pouco mais tarde é que o líder mundial da O.T.O. veria na França uma promissora oportunidade para expandir as fronteiras de suas Ordens.

Na ocasião, Papus, também médico e escritor, já contava com a fama de ser um ocultista reconhecidamente consagrado e era membro de diversas organizações de caráter místico e iniciático. Apenas citando algumas, ele havia sido membro da Sociedade Teosófica (McIntosh, 1975:175) e um dos principais participantes do Conselho dos Doze, órgão responsável pela direção da preclara Ordem da Rosa Cruz Cabalística (Webb, 1989:216)(5), a qual o Dr. Encausse viria a liderar após a morte de seus fundadores. Ao mesmo tempo, credita-se a Papus a fundação (ou reativação, como alguns preferirão frisar) da Ordem dos Superiores Incógnitos, também chamada Ordem dos Martinistas. Ele também foi membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada, fazendo parte do Templo de Ahathoor de Paris.(6) Além de tudo isso, em 1893 Papus também fora consagrado Bispo Gnóstico por Tau Valentin II (i.e. Jules Doniel, 1842-1903), Primaz da Igreja Gnóstica da França (Scriven, 2001b:217).

Apesar de não ser um maçom regular, em 1908, Papus organizou em Paris uma espécie de conferência internacional de Maçonaria. O evento, também chamado de "Congresso de Espiritualidade", aconteceu no templo parisiense da Loja Maçônica Droit Humain. Reuss, que nesse período ansiava por constituir na França um braço de seu Rito de Memphis e Misraim, em 24 de junho daquele ano, aproveitou a ocasião proporcionada pelo Congresso e conferiu justamente a Papus uma Patente(7) que o autorizava a fundar algo não muito bem definido, denominado “Supremo Grande Conselho Geral dos Ritos Unificados da Maçonaria Antiga e Primitiva para o grande Oriente de França e suas Dependências em Paris” (Scriven, 2001b:217). No mesmo evento, outro nome oportunamente agraciado pelas patentes distribuídas por Reuss foi o notório Martinista francês Téder (Charles Détré, 1855-1918), que posteriormente viria a suceder Papus na liderança da Ordem Martinista (McIntosh, 1975:220). Conforme as referências consultadas, Papus fora patenteado como 33º, 90º, 96º, enquanto que Téder recebia o 33º, 97º e Xº (Koenig, 1994a:21)(8). A partir das graduações mencionadas nessas referências, pode-se afirmar que embora Papus possuísse patente de Memphis e Misraim, o legítimo representante da O.T.O. de Reuss (o Xº) para a França na verdade seria Téder.

Porém, existe quem especule – sem muita convicção – sobre a possibilidade de que Papus também houvesse recebido, na mesma oportunidade, o Xº O.T.O. (Scriven, 2001a:8 e 2001b:218)(9), sendo ele, portanto, o real representante da Ordem na França. De todo modo, embora a sombra da dúvida ainda paire sobre a questão, note-se que a revelia de qualquer representatividade recebida por ambos, a sina dos famosos representantes de Reuss mais uma vez se repetiria: nem Téder nem Papus trabalharam no sentido de promover os imaginários braços franceses das Ordens de Merlin Peregrinus.

No que concerne a Papus, uma ressalva ainda deve ser feita. Como será visto agora, acredita-se que tudo que ele fez em relação a O.T.O. teria sido nomear outro representante para esta Ordem.

Assim, dentro do escopo pertinente a certa ramificação que teria origem na suposta O.T.O. francesa, outro nome a ser aqui citado é o do franco-haitiano Lucien-François Jean-Maine (1879-1960). Mesmo não sendo alguém hoje considerado famoso pela maioria dos não muito bem informados círculos ocultistas contemporâneos, Jean-Maine foi um conceituado representante das linhagens apostólicas das Igrejas Gnósticas operantes na Franca de sua época. Não há muita documentação que sustente uma história clara sobre sua participação como membro efetivo da Ordem Templária de Theodor Reuss. Porém, inicialmente, existem fontes que indicam Ordenações gnósticas conferidas a Jean-Maine tanto por Papus quanto por Jean Bricaud (1881-1934) (Koenig, 1994a:235)(10), o que pelo menos evidencia a grande possibilidade de haver alguma proximidade entre Jean-Maine e estes dois últimos. Assim sendo, segundo consta, acredita-se que em 1910 Papus – com ou sem permissão de Merlin Peregrinus – teria conferido autoridade de Xº da Ordem de Reuss justamente para Jean-Maine, fazendo-o representante da O.T.O. para o Haiti e às Ilhas Francesas (Koenig, 1994a:246).

De todo modo, com ou sem a patente de Xº da Ordem de Reuss, o franco-haitiano Jean-Maine foi mais um que jamais trabalhou como um membro ativo da O.T.O., no sentido de estabelecê-la devidamente seja no Haiti seja nas Ilhas Francesas, ou em qualquer outro lugar. No entanto, aqui é relevante citá-lo, pois, alguns anos mais tarde, será justamente ele o fundador daquela que é reconhecida como a primeira dissidência da O.T.O., ramificação esta conhecida como O.T.O.A., ou Ordo Templi Orientis Antiqua.

Em suma, a revelia da insistência de Theodor Reuss, até aproximadamente 1911, de todos os famosos nomes por vezes citados como Xº da O.T.O., não houve sequer um a se empenhar como seu represente de fato, divulgando adequadamente sua Ordem ou trabalhando no sentido de expandí-la. Todos eles, Steiner, Krumm-Heller, Papus, Téder e Jean-Maine, apenas deram continuidade aos movimentos nos quais já estavam engajados, relegando ao completo fracasso o plano de Reuss de tornar a O.T.O. uma organização com forte presença seja na Europa seja na América Latina.

Por último, naquilo relacionado ao Dr. Gerard Encausse, uma nota curiosa ainda poderá ser acrescentada. Acontece que a revelia de sua não participação como membro efetivo da O.T.O., hoje, Papus é considerado pelos membros do corpo Eclesiástico desta Ordem, a Ecclesiae Gnosticae Catholicae, como um Santo a ser sempre mencionado e adorado em suas Missas Gnósticas (em Liber XV).


NOTAS:

(1) Embora seja considerado francês, Papus nasceu na Cidade de Corunha, na Espanha.

(2) A respeito das atividades do Rito de Swedenborg, consulte o excelente texto de nosso Ir. R. A. Gilbert, “Chaos out of Order: the Rise and Fall of the Swedenborgian Rite”, mencionado na bibliografia.

(3) Entre outras, Westcott também foi um dos fundadores da The Hermetic Order of the Golden Dawn, bem como Magus Supremus da S.R.I.A. (Societas Rosicruciana in Anglia).

(4) Após muito hesitar, em 21 de fevereiro de 1902 Yarker emite uma patente para Reuss, autorizando-o a fundar em Berlim a Loja Swedenborg do Santo Graal, nº 15 (Gilbert, 1996:135). Ressalte-se que dada à completa irregularidade do Rito de Swedenborg, obviamente esta patente não proporcionou a Reuss a tão almejada regularidade maçônica que ele tanto buscava.

(5) Ordem fundada em 1888 por Joséphin Péladan (1859-1918) e Stanislas De Guaita (1861-1897).

(6) Porém, conforme Howe (1972:295), Papus era apenas membro Honorário da Golden Dawn (Aurora Dourada).

(7) Na “História da O.T.O.”, escrita por
David Scriven (i.e. Frater Sabazius, i.e. Bispo Tau Apyrion) e amplamente divulgada pelos sites da O.T.O. americana, há uma curiosa e muito reveladora observação a respeito dessa patente. Ali, o autor diz enfaticamente que “nesta conferência, Encausse recebeu, sem pagamento, uma patente de Reuss”. Certamente, em se tratando Theodor Reuss, o "sem pagamento" é algo tão inusitado que merece o justo destaque.

(8) Outra fonte indica Téder apenas como IXº O.T.O. (Scriven, 2001b:223).

(9) É importante salientar que David Scriven hoje é conhecido como Frater Sabazius Xº da O.T.O. americana, Ordem estigmatizada pela alcunha “Califado”. Assim, ao procurar estabelecer Papus como membro efetivo da O.T.O., Scriven, na verdade, apenas corroborava a idéia da construção de um passado mítico. De todo modo, recentemente, com o que a historiografia tem demonstrado, Scriven refez o seu texto e pelo menos passou a admitir que a participação de Papus na O.T.O. é “incerta”.

(10) Jean Bricaud, ou Bispo Tau Jean III, um dos fundadores e primeiro Patriarca da Igreja Católica Gnóstica (Scriven, 2001a:8).


BIBLIOGRAFIA:

CROWLEY, Aleister. Liber XV - O.T.O. Ecclesiae Gnosticae Catholicae Canon Missae.
Versão em inglês em: http://www.hermetic.com/sabazius/gnostic_mass.htm; versão em português: http://www.otobr.com/textos_pag.asp?txt=1907915900

GILBERT, Robert. A. 1996: “Chaos out of Order: the Rise and Fall of the Swedenborgian Rite”. In: GILBERT, Robert A. (ed) Ars Quatuor Coronatorum – Transactions of Quatuor Coronati Lodge, Vol. 108 for the Year 1995. Frome and London: Butler & Tanner, pp 122-149.
Versão on-line: http://freemasonry.bcy.ca/aqc/swedenborg.html


HOWE, Ellic. 1972: The Magicians of the Golden Dawn. London: Routledge & Kegan Paul.

KOENIG, Peter-Robert. 1994: Das OTO-Phänomen. München: AWR.

McINTOSH, Christopher. 1975: Eliphas Levi and the French Occult Revival. London: Rider & Company.

SCRIVEN, David (i.e. Tau Apiryon ou Frater Sabazius). 2001a: “History of the Gnostic Catholic Church”. In: CORNELIUS, J. Edward (Ed) e CORNELIUS, Marlene (Ed). Red Flame - A Thelemic Research Journal, nº 2. Berkely: Red Flame Productions, pp 3-15.
_____. 2001b: “Portraits of the Saints of the Gnostic Catholic Church”. In: CORNELIUS, J. Edward (Ed) e CORNELIUS, Marlene (Ed). Red Flame - A Thelemic Research Journal, nº 2. Berkely: Red Flame Productions, pp 117-224.
_____. “History of the O.T.O.”. Versão on-line em inglês: http://www.hermetic.com/sabazius/gnostic_mass.htm. Versão em português: http://www.otobr.com/pagina.asp?pg=-1531658296

WEBB, James. 1989a: “Rosicrucians”. In: CAVENDISH, Richard (ed.) e RHINE, J.B (cons.). Encyclopedia of the Unexplained. London: Arcana, pp 215-218.

Créditos da imagem
Papus:
Ocultura, em http://www.ocultura.org.br/index.php/Papus

19 de março de 2009

> Uma nota sobre Arnold Krumm-Heller

por Carlos Raposo

Se os outros não fossem tolos,
nós teríamos que ser.
(William Blake em Provérbios do Inferno)


um dos posts por aqui já publicados, avaliei criticamente a “participação” de Rudolf Steiner na Ordo Templi Orientis. Exatamente dentro do mesmo contexto que envolveu o nome do pai da Antroposofia com a O.T.O., qual seja, relacionado aos planos de Reuss para torná-la uma Ordem internacionalmente tanto conhecida quanto admirável, ainda no primeiro decênio do século XX outros nomes de expressivo valor aparecem como seus supostos representantes diretos. Entre eles, encontra-se o bem conhecido nome de Arnold Krumm-Heller (1876-1949), costumeiramente citado como Frater Huiracocha.

A presente nota visa apresentar, en passant, a importância que a Ordo Templi Orientis teve na vida de Krumm-Heller e vice-versa.

Médico militar, funcionário público, Doutor Honoris Causa em arqueologia pela Universidade do México e ministro do governo desse país na Suíça e na Alemanha (Dalmor, 1989: 252), além de ocultista de origem germana-mexicana, Arnold Krumm-Heller foi o principal responsável pelo desenvolvimento daquela que hoje é reconhecida como uma das mais tradicionais, respeitáveis e reservadas linhas rosacrucianas do século XX, a Fraternitas Rosicruciana Antiqua (ou F.R.A.). Diga-se que em uma de suas muitas viagens por países da América do Sul, foi justamente Krumm-Heller que no início da década de 1930 trouxe e fundou a F.R.A. no Brasil.(1) Em suma, a vida de Arnold Krumm-Heller é repleta de situações que certamente despertarão o interesse de todos os que lidam com ocultismo, Ordens esotéricas e Sociedades Secretas, iniciações, etc.

Todavia, naquilo que concerne estritamente a O.T.O., ao que tudo indica infelizmente não há muito a se dizer em relação a Frater Huiracocha. Ocorre que no início de 1908, Theodor Reuss, inebriado com fixa ideia de expandir sua Ordem e levá-la também às terras latinas, viu em Krumm-Heller essa oportunidade e o nomeou Representante Geral da Ordem para o México (Koenig,1994:22). Assim, em 15 de março do mesmo ano, Huiracocha era feito Xº O.T.O. para aquele país (Koenig, 1994:155).(2)

But the song remains the same. Como repetidamente ocorria nas afoitas investidas de Reuss, após um contato inicial deveras promissor, pouco ou nada acontecia. Deste modo, embora com status legal de representante da O.T.O. de Reuss para o México, o fato é que Krumm-Heller simplesmente não chegou a desenvolver qualquer tipo de trabalho ou iniciativa, mínima que seja, relacionada a esta Ordem propriamente dita. Até mesmo pelo contrário, as poucas situações que o ligam ao líder universal da O.T.O. sugerem que ele de certo modo teria preferido, aos poucos, distanciar-se dos propósitos e da ideologia defendidos pela Ordem de Reuss.(3) Nesse sentido, Krumm-Heller fez o mesmo tanto com suas linhas de iniciações gnósticas quanto com sua principal Ordem, a F.R.A., afastando-as quase que completamente de qualquer influência que seu superior direto na O.T.O. pudesse exercer sobre suas atividades iniciáticas.

Entretanto, ressalte-se que a atitude externa de Huiracocha em relação a O.T.O. não era no sentido de rechaçá-la. Quando necessitava buscar referências para si mesmo, Krumm-Heller usava francamente o nome da O.T.O., apresentando-se como um dos altos iniciados desta organização. Por exemplo, no Capítulo "Todo Irradia" de seu notório livro Logos, Mantram, Magia, Huiracocha declara abertamente que: "Yo [...] que soy miembro de más de veinte sociedades secretas, como la O.T.O. y A. A. en los cuales tengo el último grado...". Evidentemente, Krumm-Heller caprichosamente omite o fato de que toda sua participação na O.T.O. se limitava a uma indicação formal como Xº desta Ordem, e nada mais.

Em outras palavras, temos no caso da relação entre Huiracocha e a O.T.O. uma espécie de curiosa e conveniente situação: ambos mutuamente se usavam para se auto-afirmarem. Ou seja, se por um lado, não importando a completa ausência de qualquer atividade de Krumm-Heller como membro da O.T.O., ele se apresentava como alto iniciado desta; por outro, desconsiderando a completa omissão operacional de Krumm-Heller em relação a O.T.O., a própria Ordem (como hoje ocorre com suas diversas ramificações remanescentes), dada a fama e credibilidade de Huiracocha, o relaciona como um de seus mais proeminentes e ilustres membros.

Certamente esse tipo de relacionamento dará o que pensar. Por um lado, quem sabe, uns dirão que essa relação reflete uma espécie de linda harmonia simbiótica; por outro, todavia, é bem mais provável que se conclua que tudo não passa de pura e frustrante embromação.


NOTAS

1) Site da F.R.A. no Brasil: http://www.fra.org.br/

2) Uma outra referência que merece ser mencionada, agora vinda de Marcelo Ramos Motta, cita Frater Huiracocha como possuidor apenas do VIIIº O.T.O. (Crowley e Motta, 1981:XVIII). Entretanto, ressalte-se que Motta não menciona quais foram as fontes nas quais se baseou para fazer essa afirmação. Em outras palavras, há dúvidas sobre a veracidade da informação por ele prestada.

3) Mais uma vez, pesou sobre isso a pouca credibilidade despertada por Reuss (leia aqui o texto sobre Theodor Reuss).

BIBLIOGRAFIA.

DALMOR, E.R. 1989: Quién fue y Quien és en Ocultismo. Buenos Aires: Kier.
KRUMM-HELLER, 1990. A. Logos, Mantram, Magia. Buenos Aires: Kier.
KOENIG, Peter-Robert. 1994: Das OTO-Phänomen. München: AWR.
CROWLEY, Aleister; MOTTA, Marcelo Ramos. 1981: The Equinox, Vol. V nº4 - Sex and Religion. Nashville: Thelema Publising.

Crédito da Imagens:
Arnold Krumm-Heller: F.R.A.

26 de fevereiro de 2009

> Uma reflexão sobre a questão da sucessão (I)

por Carlos Raposo

Os estudos devem ter por meta dar ao espírito
uma direção que lhe permita formular juízos sólidos
e verdadeiros sobre tudo que se lhe apresente
(René Descartes em Regras para a Orientação do Espírito)


ma das questões acerca da história da Ordo Templi Orientis que mais tem preocupado aqueles que nutrem algum interesse por esta Ordem diz respeito à linha de sucessores, aos herdeiros, aos nomes que a lideraram. Essa questão não somente é legítima, mas também se mostra de extrema relevância, tanto àqueles que pretendem se filiar a Ordem quanto àqueles que dela já fazem parte. Afinal, pelo menos, é preciso saber de onde vem o grupo no qual se pretende entrar ou do qual se faz parte.

O propósito desse post é exatamente apresentar a primeira parte de uma reflexão a respeito de como ocorreu a sucessão das lideranças desta Ordem. Para tal, examinarei, a voo de pássaro, ora o que se diz a respeito dessa questão ora o que a pesquisa mais recente tem demonstrado, contrapondo tanto a opinião sectária quanto a opinião do senso comum com as evidências trazidas a lume pela análise histórica apartidária, não comprometida com ideologias.

Num primeiro momento, boa parte dos discursos e opiniões encontrados estão construídos de modo a corroborar uma clara sequência de transmissão inciática, calcada nas seguintes linhas gerais: a O.T.O. teria sido fundada pelo austríaco Carl Kellner em 1895. Desse modo, o austríaco fica estabelecido como o primeiro Chefe Externo da Ordem, costumeiramente denominado de O.H.O. (acróstico para Outer Head of the Order). O mesmo discurso sustenta que Kellner fora sucedido por Reuss em 1905. Por sua vez, este teria legado a direção geral da Ordem para Aleister Crowley (1875-1947), que a conduziria aproximadamente a partir de 1925, um pouco depois da morte de Reuss em 1923. Em seguida, Crowley deixaria a O.T.O. para Karl Germer (1885-1962). Na sequência de sucessores, Germer indicaria “os Chefes” da Ordem como continuadores de seu trabalho.

Em suma, as primeiras quatro gerações de O.H.O. da Ordem, ou a linha de sucessão iniciática da O.T.O., seria traçada do seguinte modo:

1) Carl Kellner
2) Theodor Reuss
3) Aleister Crowley
4) Karl Germer

Porém, o que a pesquisa nos mostra a respeito?

Ao examinar a suposta sequência de quatro gerações de transmissão iniciática, o primeiro ponto que naturalmente brota diz respeito à própria fundação da Ordo Templi Orientis: teria sido realmente Kellner o seu fundador? Para respondê-la, lembro que aqui mesmo em Orobas (leia em Origens Maçônicas da O.T.O. e o texto sobre Carl Kellner) já foi demonstrado que não há nenhuma relação de Kellner com a O.T.O. e que de fato fora Reuss o criador dessa Ordem. Assim, como foi este último que fundou a Ordem, não há sentido algum considerá-lo – nem Reuss e nem qualquer outro – herdeiro ou sucessor Kellner no que quer que seja.

Depois, questiona-se para quem Reuss teria legado a sua Ordem. Curiosamente, a resposta é bastante simples, conquanto que mordaz: para ninguém. Em outras palavras, ninguém herdou a Ordem diretamente de Reuss.

Todavia, o problema sobre quem sucedeu Reuss não acaba aí. Como se essa vacância de herdeiro já não fosse suficiente para se questionar qualquer nome que pleiteasse posição destacada numa alegada cadeia iniciática de líderes da O.T.O., eis que, como mágica, aqui abrolha exatamente o nome de Aleister Crowley como O.H.O. e líder supremo da organização de Reuss. Acontece que se considerarmos pelo menos os últimos três anos da vida do criador da Ordem, tal fato chega a ser bizarro, senão absurdo, pois nesse período Reuss passaria a desaprovar completamente qualquer ingerência de Aleister Crowley na sua O.T.O., indo ao extremo de considerar Thelema – a religião fundada por Crowley – uma ideologia nociva e comunista (1). Assim, Reuss purgaria de sua O.T.O. qualquer menção a Thelema, eliminado da Ordem todos os indícios da religião criada pelo afamado mago inglês. Como comprova a documentação disponível (2), de fato Reuss chegaria a romper qualquer contato com Crowley, dizendo inclusive que quaisquer ações do inglês não eram mais da conta nem dele e nem da Ordo Templi Orientis (3).

Porém, como então Crowley despontaria como O.H.O. da O.T.O? Em 1925, um pouco depois da morte de Reuss, Crowley arranja um encontro onde além de um reduzido número de discípulos seus, foram convidados os líderes nacionais da Ordem e algumas outras lideranças ocultistas de pouca expressividade. Em carta a um dos líderes nacionais da O.T.O., Crowley deixava bem claro seu objetivo em realizar a reunião: ele queria dominar TODAS as Ordens existentes. Não levando em consideração a baixa presença – praticamente nenhum líder nacional da O.T.O. compareceu, bem como praticamente nenhuma liderança ocultista – a reunião mesmo assim se realizou. E foi nela que Crowley apresentou uma declaração (escrita por ele mesmo) exigindo que todos que ali estavam a assinassem, reconhecendo-o como ninguém menos do que o próprio “Redentor da Humanidade”.(4) Para resumir o que acontecera ali a partir de então, após uma certa revolta de alguns presentes, reunião foi encerrada com Crowley reconhecido por quase meia dúzia de assinaturas (de seus discípulos) como o “Redentor da Humanidade”. A partir desse fato, inadvertidamente se costuma dizer que Crowley teria sido “eleito” como O.H.O da Ordo Templi Orientis. Contudo, apesar do capricho de Crowley em exigir ser reconhecido pelos presentes como o “Redentor da Humanidade”, absolutamente nada fora decidido a respeito do nome que ocuparia a função de O.H.O. da Ordem de Theodor Reuss.

Ao que tudo indica, passado alguns meses depois disso, como ninguém parecia se importar com o destino da O.T.O. de Reuss(5), Crowley meramente passaria a se apresentar como o líder, ou O.H.O., de uma nova O.T.O., agora inteiramente transformada e convertida como um instrumento de disseminação de sua religião thelêmica. Por mero desinteresse, ninguém o questionaria e ele assim permaneceu como líder da Ordem. Em outras palavras, oficialmente, Crowley jamais sucedeu quem quer que seja como líder da O.T.O., mas apenas se impôs como Chefe de um grupo inteiramente novo e, de certo modo, espúrio em relação à Ordem de Reuss.

Depois, encontramos Karl Germer na linha de sucessão da Ordo Templi Orientis. De fato, Aleister Crowley deixou por escrito em seu testamento que a sua O.T.O. ficaria para Germer. Embora isso não se questione, não deixam de ser notáveis as diversas declarações lamuriosas de Germer no sentido de não querer esse peso sobre seus ombros. Mais ainda, para ele, o herdeiro natural de Crowley deveria ter sido Kenneth Grant (1924-2011).

Contudo, o que finalmente parecia muito bem definido, pelo menos em relação à sucessão Crowley-Germer, acabou por desembocar numa uma grande confusão. Quem sucederia Germer?

Primeiro, Kenneth Grant, aquele que Germer considerava herdeiro natural de Crowley, começou a desenvolver um inédito trabalho com a Loja inglesa Nova Ísis, elaborando seus próprios rituais, desenvolvendo-os de acordo com a doutrina a qual chamou de “transplutoniana”. Furioso com a iniciativa e independência de Grant, ainda na década de 1950, Germer o expulsa sumariamente dos quadros da Ordem.

Mas a confusão começa mesmo quando, alguns anos depois, Germer deixa um documento que além de não delegar diretamente ninguém como seu sucessor, indica explicitamente que os “Chefes” da O.T.O. deveriam dirigir a Ordem após a sua morte. Assim, com o falecimento de Germer em 1962, aos poucos, começam a entrar em cena como líderes da Ordem os nomes que comporiam uma suposta 5ª geração de O.H.O. simultâneos da Ordem: o suíço Joseph Metzger (1919-1990), o já citado inglês Kenneth Grant, o americano Grady Louis McMurtry (1918-1985) e o brasileiro Marcelo Ramos Motta (1931-1987). Nesse sentido, Metzger promoveu uma “eleição”, onde participaram apenas aqueles que já estavam sob sua tutela, e foi “eleito” Chefe mundial da Ordem. Por sua vez, Grant fechou a Loja Nova Ísis, começou a publicar livros a respeito de Crowley, da O.T.O, de Thelema e de vários assuntos correlatos, e também se promoveu como chefe mundial da Ordem. Nos EUA, McMurtry evocou alguns documentos os quais chamou de “emergenciais” e se disse chefe mundial da Ordem. No Brasil, o mesmo foi feito por Marcelo Motta, que por ter sido considerado por Germer como o “Seguidor”, também se achou no direito de se proclamar chefe mundial da Ordem.

De certo modo, a O.T.O. então passa a ser algo parecido a um Cérbero, só que com quatro cabeças, com quatro chefes mundiais a conduzi-la de modo mutuamente independente. Algo aqui deve ser ressaltado: se por um lado tanto Metzger quanto Grant trabalham como líderes sem qualquer tipo de interferência no trabalho alheio, por outro, o mesmo não pode ser dito a respeito de McMurtry e Motta. Mas isso é algo que examinaremos no futuro.

Atualmente, o quadro internacional da O.T.O. é o seguinte: os remanescentes de Metzger continuam reservadamente com o seu trabalho na Suíça; os herdeiros de Grant seguem trabalhando e divulgando os seus livros e a sua O.T.O., hoje chamada de Tifoniana; McMurtry estabeleceu o Califado que hoje se encontra em diversos países, com diversos Corpos filiados trabalhando no tradicional modo de iniciações presenciais; e os que se consideram sucessores de Motta e de sua Sociedade Ordo Templi Orientis, seguem em diversas iniciativas pessoais e locais, com um trabalho bastante fragmentado e praticamente sem consistência. Cada um desses grupos reclama para si a autenticidade e a unicidade do próprio trabalho, considerando-se herdeiros absolutos e únicos da Obra que teria sido iniciada por Kellner.

Em breve, abordarei aqui em Orobas separadamente cada uma desses grupos remanescentes. Todavia, por agora, resumo da seguinte forma o pitoresco quadro histórico de sucessores da O.T.O., que na verdade mais parece seguir uma espécie de estranha linha não inciática:
  1. Kellner nem fundou nem nunca pertenceu a qualquer O.T.O., logo, ninguém pode afirmar que teria herdado dele esta Ordem;
  2. Theodor Reuss, o verdadeiro criador da O.T.O., não a delegou para quem quer que seja, não nomeou herdeiro ou sucessor, não determinou seu substituto como O.H.O e líder supremo de sua Ordem. Em decorrência disso, pode-se afirmar que a autêntica Ordo Templi Orientis simplesmente nasceu e morreu com Theodor Reuss.
  3. Depois, sem consultar ninguém a respeito, Aleister Crowley, que inicialmente pretendia “apenas” ser aclamado o “redentor do mundo”, simplesmente se impôs como O.H.O. de uma versão completamente nova da O.T.O., agora transformada em uma Ordem religiosa, cujo objetivo maior era disseminar pelo mundo a sua religião de Thelema. A nova O.T.O. thelêmica, assim, passa a ser considerada espúria em relação à Ordem de Reuss;
  4. Aleister Crowley, de fato, legou a sua nova O.T.O. thelêmica para Karl Germer.
  5. Por sua vez, Karl Germer não legou a Ordem especificamente para alguém, deixando-a para os seus “Chefes”, sem declarar que Chefes eram esses;
  6. Praticamente todos os grupos que atualmente subsistem sob a denominação “O.T.O.” têm origem em pelo menos um dos quatro “Chefes” que se julgaram no direito de serem O.H.O., ou líderes supremos da O.T.O., a saber: Marcelo Ramos Motta, no Brasil; Kenneth Grant, na Inglaterra; Grady L. McMurtry, nos EUA e Joseph Metzger, na Suíça.
Por último, em relação ao item (6) acima, entre querelas, decisões judiciais, etc, paira a eterna dúvida: quem possui legitimidade para desenvolver o trabalho da O.T.O.? É o que veremos nos próximos posts.


Créditos das imagens:
Alesiter Crowley: www.lashtal.com

NOTAS:

(1) Ironicamente, em sua juventude Reuss se declarou militante da causa comunista. Ver post sobre Theodor Reuss, aqui mesmo em Orobas.
(2) Por ser apenas uma breve reflexão, não é objetivo do presente post apresentar essa documentação. Contudo, em breve postaremos um texto que demonstrará quais foram as desavenças que fizeram com que Reuss rompesse definitivamente qualquer contato com Aleister Crowley.
(3) Há pesquisas que sugerem que Crowley fora expulso da O.T.O. por Reuss.
(4) Muito possivelmente, Crowley estaria bastante impressionado e influenciado pela disseminada ideia teosófica a respeito do “Instrutor do Mundo”.
(5) Ninguém tinha interesse no legado de Reuss, possivelmente consequência de sua péssima fama e praticamente nenhuma credibilidade (para conhecer um pouco de sua vida, leia o texto sobre Theodor Reuss).


8 de fevereiro de 2009

> Herança Templária: história ou mitologia retrospectiva?

por Carlos Raposo

Não basta constatar o embuste.

É preciso também descobrir seus motivos.
(Marc Bloch, em Apologia da História)

um primeiro momento, por associação direta, a designação nominativa Ordo Templi Orientis (“Ordem dos Templários do Oriente”) evoca a imediata lembrança da histórica Ordem do Templo, da qual fizeram parte os famosos Cavaleiros Templários, também conhecidos como os Pobres Cavaleiros de Cristo. Daí surge a inevitável indagação: qual a verdadeira conexão existente entre estas duas Ordens? O presente post visa responder essa questão, bem como explorar as razões pelas quais algumas Ordens buscam cercar de glórias as suas supostas raízes.

No que diz respeito à famosa Ordem do Templo, apesar dela ter sido agraciada como uma vasta estrutura, pretensamente capaz de tudo suportar, os historiadores menos inclinados a elucubrações românticas são duramente taxativos quando afirmam a completa supressão da instituição templária (Demurger, 2002:262). Porém, dentro das especulações acerca dos legendários Cavaleiros Templários é perfeitamente possível supor que alguns deles tenham escapado da atroz perseguição imposta à Ordem, a qual desembocou, ainda no alvorecer do século XIV, na extinção da instituição. Embora a grande maioria deles tenha sido subjugada, encarcerada ou morta (Demurger, 1986:276), admitindo-se uma possibilidade de fuga, ora os Cavaleiros remanescentes se uniriam a diferentes Ordens Militares ora subsistiriam em outros lugares, sob nova denominação. Assim, uma vez consentindo a existência de uma doutrina templária tanto secreta quanto iniciática (Evola, 1987:132) e uma vez aceitando que alguns Templários haveriam escapado, estima-se que, deste modo, seus remanescentes puderam de alguma forma dar prosseguimento à disseminação do conhecimento que possuíam, chegando até mesmo a – como a lenda se esforça por sustentar – continuar com o padrão iniciático que se crê ter sido secretamente praticado pelos Templários na época da Ordem do Templo. Estritamente condicionada a esta frágil possibilidade, acredita-se, então, que os mistérios outrora pertencentes aos Cavaleiros Templários tenham, de alguma forma não muito clara, permanecidos até os dias atuais.

A partir da hipótese acima construída, são inúmeros aqueles que se avigoram no sentido de procurar estabelecer vínculos históricos entre a Ordem do Templo e movimentos contemporâneos entendidos como possuidores de natureza templária ou, quiçá, neo-templária. Contudo, em que se pese todo esse empenho, até o presente momento, tanto a revelia da opinião expressada pelo senso comum quanto das paixões suscitadas pelo tema, não há estudo confiável sob o ponto de vista histórico que demonstre claramente qualquer linha de transmissão dos alegados mistérios templários até os nossos dias, assim como supostamente cultivados pelos Cavaleiros do Templo. Aliás, até mesmo a afirmação de terem sido os Templários possuidores de conhecimentos espirituais ocultos, secretos, inefáveis e iniciáticos, encontra-se hoje tão cercada por folclores e superstições, que mesmo um pesquisador pouco ajuizado tenderá a apreciar com sérias reservas a hipótese de uma alegada herança Templária naquilo que diz estrito respeito a sua pretensa doutrina mística. Inserido neste contexto, costuma-se citar, por exemplo, o caso do mais famoso ídolo templário. Apesar de contar com grande popularidade no permissivo meio esotérico atual, tantos são os absurdos ditos acerca de Baphomet, que não mais se ousa afirmar que o ídolo realmente existiu no seio da Ordem do Templo, mas que ele não passa - conjetura esta que tem ganhado força - de uma simples estrutura imaginária tardia, um mito posterior aos próprios Cavaleiros do Templo de Jerusalém.(1)

Consequentemente, ante a impossibilidade de se demonstrar, de modo taxativo, uma herança templária, algumas Ordens contemporâneas têm nitidamente mudado o enfoque de seus discursos, esforçando-se no sentido de traçar paralelos entre as suas atividades e as atividades da antiga Ordem do Templo. Segundo o novo enfoque, embora de fato não exista nada conclusivo sobre a herança templária, a partir de certos pontos considerados comuns entre as Ordens seria então possível aceitar nos grupos contemporâneos a existência daquele anseio religioso, a influência do espírito sagrado outrora presente naquela antiga Ordem. Neste sentido, as atuais Ordens promoveram a transformação dos eventos das antigas Confrarias de Cavalaria em alegorias místicas. Assim, por exemplo, viagens ao oriente misterioso foram adequadas a jornadas iniciáticas simbólicas, realizadas no interior de templos; percalços da peregrinação em direção ao sagrado, transformadas em pequenas provações, ordálios e trotes ritualísticos; conquanto que a própria Irmandade de Cavalaria a salvaguardar os peregrinos nos longos e perigosos percursos à Terra Santa, convertida em uma Ordem Iniciática a proteger seus adeptos na tortuosa senda individual em demanda do conhecimento sagrado.

Muito correto é afirmar que tal horizonte, por vago e lato em termos de uma autêntica herança espiritual, não soa algo convincente. Entretanto, seja dito que para muitos grupos simplesmente é isso o que lhes restou.

Destarte, respondendo a questão inicialmente proposta, não existe qualquer conexão plausível entre a O.T.O. e os Cavaleiros Templários.(2) Contudo, embora esta prática seja adotada por poucos, existem ramificações da O.T.O. que aproveitam a óbvia associação nominativa, tendendo discretamente a incentivá-la, no sentido de sedimentar em seus membros a tácita certeza de que eles não somente fazem parte de algo sagrado, mas também de uma Ordem inegavelmente histórica, antiga, a qual, por séculos a fio, teria sido de grande valia para os rumos místicos do ocidente. Com este fito, antes de qualquer investida expositiva sobre a história da O.T.O., tornou-se voga nestas ramificações, apresentar-se - a título de “introdução” - uma série de informações generalistas sobre os Cavaleiros Templários, de modo a produzir um automático e hipotético vínculo advindo de um possível legado templário.(3) Ao mesmo tempo, pretende-se com aquelas informações introdutórias, seguindo a idéia central de sedimentar a natureza do sagrado e do antigo, a partir da expectativa de que o conhecimento dos Templários houvesse sido preservado, estabelecer a existência nos nossos dias de uma espécie de revival esotérico (Wasserman, 1990:92), o qual teria indiscutível origem na fundação da Ordem dos Cavaleiros Templários, por Hughes de Payens, em 1118.

A O.T.O., assim apresentada chega a ser erroneamente interpretada por alguns como uma natural herdeira dos Cavaleiros Templários. Historicamente, entretanto, não existe qualquer evidência, ou sequer vestígio, que possa unir estes àquela. Porém, também seja dito, dentro do contexto de alguns grupos iniciáticos atuais, há a premente necessidade de se fomentar tal tipo de falsa conexão, por um motivo de fato bem simples: por vezes ela é a força motriz que impulsiona o espírito ideológico responsável pela existência dos próprios grupos.

Não são raros os exemplos de Ordens a se utilizarem daquilo que, academicamente, pode ser chamado de mitologia retrospectiva, ou seja, manipular consideravelmente os fatos tendo em vista a construção de um fictício passado glorioso. Como freqüentemente dito pelos totalitaristas, na falta de um passado convincente é perfeitamente possível se forjar um. No embalo deste furor ideológico, há até uma facção da O.T.O., a qual, extrapolando quaisquer dos limites sugeridos pelo bom senso, ao abusar da fórmula das mitologias retrospectivas, além de forçar um elo com os antigos Cavaleiros Templários, faz exatamente o mesmo com diversas correntes de pensamento iniciático, como a Maçonaria, o Gnosticismo, a Teosofia, a Rosacruz, o Iluminismo, as Escolas Pagãs, etc. Conforme os seguidores desta ramificação, estes movimentos iniciáticos nada mais representariam senão a agitação da natureza, o imbróglio necessário à germinação da verdadeira Ordem, a qual seria representada por eles mesmos. Deste modo, conforme este canhestro discurso, a O.T.O. seria o produto final de uma espécie de histórica e magistral confluência de divergentes correntes de sabedoria (sic).

Concluindo, segue a recomendação: ao tomar contato com qualquer Ordem que alegue possuir ascendência na Ordem do Templo e que alegue ter raízes nos Cavaleiros Templários, antes de simplesmente aceitar o que é dito, valerá muito mais buscar referências seguras a respeito disso. Afinal, todo o rebuscado romantismo que cerca as Ordens iniciáticas é um instrumento que tende a levar o neófito ao crer, mas nunca ao saber.


NOTAS:

1) A esse respeito, ver minha pesquisa Os Mistérios de Baphomet.
2) Não seria exagero afirmar que o mesmo se aplica a diversas outras Ordens contemporâneas que alegam possuírem heranças diretas dos Templários.
3) A utilização ritualística de personagens históricos, por exemplo, como Saladino, é uma outra forma bem clara de sugerir uma possível herança ancestral.

Bibliografia:

DEMURGER, Alain. 1986: Auge y Caída de los Templários. Barcelona: Martinez Roca.
_____. 2002: Os Cavaleiros de Cristo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

EVOLA, Julius. 1987: O Mistério do Graal. São Paulo: Pensamento.

WASSERMAN, James (aka fr. Ad Veritatem). 1990: “An Introduction to the History of the OTO”. In: BETA, Hymenaeus (Ed.) The Equinox, Vol. III, nº X. Maine: Samuel Weiser, pp 87-99.

Crédito da imagem:
Templários (acervo pessoal)